Há rios que atravessam cidades, e há rios que atravessam a história de uma cidade. O rio Cachoeira é um deles.
Por suas águas passaram memórias, sonhos, riquezas, embarcações e, também, os impactos de uma cidade que cresceu às suas margens. Hoje, o Cachoeira continua sendo uma das principais bandeiras do Instituto Viva Cidade (IVC), que desde 2008, quando ainda se chamava Instituto Viva o Cachoeira, vem articulando com os poderes públicos municipal e estadual ações voltadas à recuperação ambiental desse importante patrimônio natural de Joinville.
O desafio permanece imenso, mas permanece, sobretudo, a esperança de que um rio possa voltar a ser mais do que um curso d'água que corta a paisagem urbana: possa voltar a ser parte viva da cidade. É nesse caminho que surge uma nova ferramenta de conhecimento, monitoramento e mobilização.
Por iniciativa do conselheiro do Instituto Viva Cidade, Thiago Zschornack, foi criado o Observatório Cachoeirômetro, uma plataforma de inteligência ambiental urbana concebida para reunir, em um mesmo sistema, informações sobre resíduos flutuantes, qualidade da água, saneamento e educação ambiental.
A ideia é simples em sua essência, mas ambiciosa em seus resultados: conhecer o rio para poder cuidar dele. O Cachoeirômetro pretende transformar o próprio rio Cachoeira em um grande observatório ambiental a céu aberto, capaz de revelar, por meio de dados, aquilo que muitas vezes os olhos da cidade não conseguem perceber.
O painel é uma das ações do projeto “Cachoeirômetro – por um rio Cachoeira sem lixo”, proposta de parceria apresentada à Prefeitura de Joinville, em julho de 2026, pelo Instituto Viva Cidade e pelo Clube de Oratória e Liderança (COL).
A proposta de instalação de um sistema de boias de contenção flutuante, em trecho estratégico do rio Cachoeira, foi bem recebida pelo órgão público. O objetivo é permitir que os resíduos transportados pelo rio sejam retidos, coletados, pesados, caracterizados e monitorados. Porque aquilo que hoje simplesmente desaparece rio abaixo poderá, a partir desse sistema, transformar-se em informação. E informação é uma das mais poderosas ferramentas de transformação.
O projeto não pretende apenas retirar resíduos do Cachoeira, mas compreender de onde eles vêm, quanto representam, que tipo de material chega ao rio e o que esses resíduos dizem sobre os hábitos, comportamentos e deficiências existentes na própria cidade.
É nesse ponto que o Cachoeirômetro ultrapassa os limites de um projeto de limpeza. Ele propõe uma nova forma de olhar para o rio. Resíduos, qualidade da água, saneamento básico e comportamento da população passam a conversar dentro de um mesmo sistema de monitoramento e comunicação pública.
E os dados não ficarão restritos aos especialistas. O projeto prevê um forte componente de Educação Ambiental, transformando os resultados obtidos em instrumentos de conscientização destinados à população, às escolas, às empresas e aos visitantes. O projeto tem potencial qualificado de Educação Ambiental contemplado com:
- Palestras em escolas.
- Visitas de campo de estudantes.
- Visitas técnicas.
- Exposição itinerante.
- Divulgação mensal dos resultados.
- Campanhas em redes sociais.
- Concurso estudantil de conscientização ambiental.
- Divulgação pública mensal do “Boletim do Cachoeirômetro”, contendo dados de resíduos, IQA, curiosidades ambientais e indicadores de saneamento.
- Instalação de painel eletrônico ou portal digital exibindo em tempo real a quantidade de resíduos removidos do rio e os resultados mais recentes do IQA.
Assim, o rio deixa de ser apenas cenário. Passa a ser também sala de aula, laboratório, fonte de conhecimento e instrumento de cidadania.
O projeto pretende ampliar a conscientização ambiental da população, fortalecer a imagem de Joinville como referência em sustentabilidade e oferecer subsídios técnicos para futuras políticas públicas de prevenção da poluição hídrica. Também está prevista a criação do primeiro sistema público integrado de monitoramento de resíduos sólidos e qualidade da água do rio Cachoeira, ampliando a transparência e a compreensão da sociedade sobre a evolução ambiental da bacia hidrográfica.
A divulgação periódica dos resultados do IQA poderá, ainda, contribuir para a valorização dos investimentos realizados em saneamento básico. Ao longo do tempo, o Cachoeirômetro poderá construir uma série histórica de indicadores ambientais, capaz de apoiar decisões técnicas, acadêmicas e governamentais. E poderá fazer algo ainda mais importante: aproximar pessoas e instituições.
A proposta prevê o fortalecimento da governança ambiental municipal por meio da integração entre o poder público, a Companhia Águas de Joinville, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e a comunidade. Porque nenhum rio se recupera sozinho. Um rio é uma responsabilidade coletiva.
- Retirada de dezenas de toneladas de resíduos do Rio Cachoeira
- Produção inédita de indicadores sobre poluição fluvial urbana em Joinville.
- Ampliação da conscientização ambiental da população.
- Fortalecimento da imagem de Joinville como referência em sustentabilidade.
- Subsídios técnicos para futuras políticas públicas de prevenção da poluição hídrica.
- Criação do primeiro sistema público integrado de monitoramento de resíduos sólidos e qualidade da água do Rio Cachoeira.
- Maior transparência e compreensão pública sobre a evolução ambiental da bacia hidrográfica.
- Valorização dos investimentos realizados em saneamento básico por meio da divulgação periódica dos resultados do IQA.
- Produção de uma série histórica de indicadores ambientais capaz de apoiar decisões técnicas, acadêmicas e governamentais.
- Fortalecimento da governança ambiental municipal por meio da integração entre poder público, Companhia Águas de Joinville, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e comunidade.
E há uma dimensão ainda maior nessa história. O que acontece no Cachoeira não termina onde suas águas encontram a Lagoa Saguaçu. O rio é parte de um sistema ambiental maior, e a consequente redução da poluição do Cachoeira representa também uma contribuição para a conservação do Ecossistema Babitonga, que integra seis municípios do nordeste de Santa Catarina: Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapoá, Joinville e São Francisco do Sul.
A relação do Instituto Viva Cidade e do Clube de Oratória e Liderança com a Baía Babitonga não é recente. Ao longo dos anos, diversas iniciativas foram realizadas e transformadas em importantes instrumentos de conscientização e educação ambiental:
- Exposição fotográfica “Ecossistema Babitonga: Retratos do Estuário”
- Documentário “Maré de Conflitos”
- Documentário “O Marinheiro do Rio Cachoeira”
- Documentário “Se Ligue no Esgoto”
- Documentário “Cachoeira, o Rio que Teima pela Vida”
- Vídeo “Fritz, o Morador do Rio Cachoeira”
São obras que registram paisagens, histórias, conflitos e esperanças. E que ajudam a lembrar que proteger um território também significa contar a sua história. E parte dessa história também está documentada como referência nacional em estudo científico em que Joinville é tema na Revista Brasileira de Educação Ambiental.
Outra bandeira que atravessa a trajetória das entidades é a retomada da navegação no Ecossistema Babitonga. O IVC e o COL integram o Grupo de Governança Náutica da Baía Babitonga, desde sua criação, em 2023. Um movimento criado por iniciativa do SEBRAE/SC para contribuir com o disciplinamento do uso sustentável da Baía, tendo como foco a chamada Economia Azul.
A possibilidade de retomada da navegação no rio Cachoeira também possui uma longa história.
Na reunião realizada em setembro de 2026, o IVC apresentou um relato sobre sua experiência na liderança das iniciativas para a retomada da navegação no Cachoeira durante a década de 2000. Naquele período, a iniciativa contou com o apoio do então governador Luiz Henrique da Silveira e de empresários associados ao Instituto Viva Cidade, produzindo desdobramentos que conheceram tanto momentos de sucesso quanto de fracasso.
A experiência acumulada deixou uma convicção técnica que continua sendo defendida pela entidade: qualquer iniciativa de retomada da navegação no rio Cachoeira estará condicionada à dragagem do rio. Essa posição foi recentemente levada de forma oficial e direta à prefeita de Joinville, Rejane Gambim, em manifestação do Instituto sobre o tema. Não se trata apenas de fazer os barcos voltarem. Trata-se de compreender as condições necessárias para que essa volta seja ambientalmente, tecnicamente e economicamente viável.
Durante a exposição realizada no Grupo de Governança Náutica, o IVC também lembrou que o tema da navegação faz parte de pesquisas e projetos desenvolvidos pelo Instituto Viva Cidade e pelo Clube de Oratória e Liderança há muitos anos, com registros documentais que remontam a 1930. É uma história que atravessa gerações. E justamente por isso desperta interesse no presente.
Representantes do Governo do Estado de Santa Catarina, que participaram do encontro, manifestaram interesse em aprofundar o diálogo, especialmente porque está em andamento um estudo contratado pelo Estado para avaliar o transporte de passageiros entre municípios que integram o Ecossistema Babitonga, incluindo Joinville, Itapoá, São Francisco do Sul e Balneário Barra do Sul.
Ainda neste mês de setembro de 2026, mais um passo é dado nessa direção. Em reunião com o secretário de Estado de Portos, Aeroportos e Ferrovias, Beto Martins, dirigentes da Diretoria de Integração de Modais (DIMOD) e da Gerência de Projetos Hidroviários (GEPHI), o tema volta à mesa. E quando um tema retorna à mesa depois de décadas, talvez seja porque o rio ainda esteja esperando.
Mas o rio continua. Corre, mesmo quando parece cansado. Carrega sedimentos, histórias, resíduos e esperanças. E talvez seja justamente essa persistência que tenha inspirado o título de um dos documentários produzidos pelo IVC e pelo COL: “Cachoeira, o Rio que Teima pela Vida”.
A frase resume uma parte importante dessa história, porque recuperar o Cachoeira não significa apenas limpar suas águas. Significa recuperar a relação de Joinville com o seu rio; transformar números em consciência, consciência em atitude e atitude em política pública; compreender que cada garrafa, cada saco plástico, cada pedaço de resíduo que chega às suas águas é também um pequeno retrato da relação que estabelecemos com a cidade. E significa reconhecer que a saúde do Cachoeira é inseparável da saúde da Baía Babitonga e de todo o território que dela depende.
Quando, em 2008, o IVC e o COL levaram à prefeitura a proposta de criação de um corredor de conscientização e educação ambiental às margens do rio Cachoeira, na região da central da cidade, vislumbrava-se o que se materializa hoje: o Parque Linear Porto Cachoeira, que prevê a requalificação das margens do rio, transformando-se em um corredor que deve conectar também equipamentos de turismo e lazer.
E o Cachoeirômetro nasce, portanto, como ação complementar, como ferramenta de monitoramento, e carrega uma ambição maior: fazer com que o rio seja visto pelos governos, pelas empresas, pelas escolas, pela comunidade. Visto por quem passa diariamente por suas margens e, talvez, já tenha deixado de percebê-lo. Porque aquilo que não vemos dificilmente cuidamos e aquilo que aprendemos a conhecer começa, finalmente, a fazer parte de nós.
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