sábado, 14 de março de 2026

Quando a velocidade substitui o mérito: um risco para a política cultural catarinense

A decisão anunciada pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) de alterar o critério de seleção do Programa de Incentivo à Cultura de Santa Catarina (PIC) gera preocupação entre profissionais e entidades do setor cultural do estado. Segundo informações divulgadas pela instituição, diante do elevado número de projetos inscritos a proposta seria adotar como critério principal a ordem de inscrição dos projetos, encerrando o processo assim que o teto de recursos (R$ 75 milhões) for atingido.
O anúncio foi feito pela presidenta da FCC, Maria Teresinha Debatin, na abertura da 10ª Conferência  Municipal de Cultura (CMC) de Joinville que aconteceu no Teatro do Museu da Dança de Joinville, na noite de 13 de março de 2026.
Para representantes do setor cultural, a medida pode trazer impactos relevantes para a política pública de incentivo à cultura em Santa Catarina.

O evento em Joinivlle reuniu dezenas de agentes culturais nos dias 13 e 14 de março de 2026

#PraTodosVerem: Foto de um auditório durante uma apresentação. No palco, duas mulheres estão em pé: uma delas fala ao microfone e a outra faz interpretação em Libras. Ao fundo, um grande telão roxo projeta o título “O Inédito Viável” e uma frase atribuída a Paulo Freire: “O inédito viável é a ação transformadora que atua sobre o que parece impossível.” Abaixo, um texto fala sobre a construção participativa de um plano de cultura para Joinville. Na parte inferior da imagem, aparece o público sentado, visto de costas, assistindo à apresentação. O ambiente é iluminado por luzes de palco e transmite clima de conferência ou evento cultural.

Como membro do Comitê Gestor do Fórum Setorial Permanente do Audiovisual de Santa Catarina (CG-FSPAv-SC), vejo com preocupação a alteração da lógica tradicional dos programas de incentivo cultural, que historicamente se baseiam na avaliação de mérito técnico e impacto cultural das propostas. A cultura não pode ser tratada como uma corrida de velocidade. Programas de incentivo existem para avaliar a qualidade, a relevância e o alcance cultural dos projetos. Quando o principal critério passa a ser apenas quem se inscreve primeiro, corre-se o risco de deixar de fora iniciativas importantes para o desenvolvimento cultural do estado.
Outro ponto levantado por representantes do setor é que o novo modelo pode favorecer produtores com maior estrutura técnica e administrativa, enquanto artistas independentes e iniciativas de regiões com menor infraestrutura cultural podem enfrentar mais dificuldades para competir na chamada “corrida de inscrições”. Alto número de projetos apresentados ao programa demonstra a vitalidade e o crescimento do setor cultural catarinense, o que reforça a importância de mecanismos de seleção que garantam diversidade, qualidade e transparência na aplicação dos recursos públicos.
Diante desse cenário, defendo que o debate sobre os critérios de seleção do programa seja ampliado, buscando soluções que conciliem eficiência administrativa com avaliação técnica e promoção da diversidade cultural. O grande número de projetos inscritos não deve ser visto apenas como um problema administrativo, mas como um sinal claro da força criativa da cultura catarinense. Esse é um momento importante para fortalecer, e não enfraquecer, os mecanismos de avaliação e incentivo à produção cultural no estado. 
É preciso repensar a decisão, pois há algo de profundamente humano no tempo da cultura. A cultura não nasce da pressa. Ela nasce do encontro, da escuta, da maturação silenciosa das ideias. Nasce do tempo necessário para que uma história encontre sua forma, para que um artista descubra sua voz, para que um projeto se transforme em experiência compartilhada.
Por isso causa inquietação. Não se trata de quem chega antes, mas de quem tem algo a dizer ao seu tempo. Ao transformar um processo de avaliação cultural em uma disputa pela velocidade da inscrição, corremos o risco de inverter o sentido da política pública. Em vez de perguntar quais projetos melhor dialogam com a sociedade catarinense, quais ampliam nossa diversidade estética, quais fortalecem nossas identidades culturais, passamos a perguntar apenas: quem conseguiu apertar o botão primeiro?
É como se abríssemos as portas de uma biblioteca e disséssemos que os livros mais importantes serão aqueles colocados primeiro na estante. Sabemos que não é assim que a cultura funciona.
A pressa, nesse caso, pode produzir uma injustiça silenciosa. Produtores com equipes estruturadas, consultorias e domínio dos mecanismos burocráticos terão naturalmente mais condições de correr essa corrida digital. Já artistas independentes, coletivos emergentes, criadores das pequenas cidades ou das margens culturais do estado podem sequer chegar à linha de partida.
E assim, sem perceber, o que deveria ser uma política pública de incentivo pode se transformar em um mecanismo de exclusão. A ironia é que o próprio problema que levou a essa decisão revela algo extraordinário: a vitalidade da cultura catarinense. Centenas de projetos inscritos não representam um excesso; representam uma potência criativa que pede escuta, cuidado e visão pública.
Quando tantos artistas, produtores e coletivos se mobilizam para apresentar suas ideias, o que está diante de nós não é um problema administrativo. É um sinal de que a cultura pulsa. E quando a cultura pulsa, o papel do Estado não deveria ser acelerar o relógio, mas criar condições para que essa diversidade possa florescer com justiça e qualidade.
A política cultural, afinal, é uma arte delicada. Ela precisa equilibrar eficiência e sensibilidade, gestão pública e imaginação coletiva. Não basta distribuir recursos; é preciso reconhecer aquilo que, no meio de tantos projetos, tem capacidade de transformar nossa experiência cultural.
A cultura pede tempo. Tempo para avaliar, para escutar, para escolher com responsabilidade aquilo que queremos incentivar como expressão do nosso tempo. Santa Catarina construiu, ao longo das últimas décadas, uma trajetória importante de diálogo entre poder público e setor cultural. Esse patrimônio institucional não pode ser substituído pela lógica da pressa. Porque, no fundo, toda política cultural carrega uma pergunta silenciosa: que tipo de cultura queremos cultivar?
Se a resposta for apenas a velocidade, talvez estejamos perdendo de vista aquilo que torna a cultura essencial. A cultura não corre. A cultura permanece.

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