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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Entre rios, memórias e mãos que falam, blog de jornalista conta agora com VLibras

A homenagem que recebi da Câmara de Vereadores de Joinville com a Medalha de Mérito "Amigo do Meio Ambiente" transformou-se, para mim, em algo maior que um reconhecimento público: foi um convite para percorrer os caminhos da própria memória. Ao olhar para trás, vejo a longa estrada percorrida desde os anos 1950, década em que nasci, e me surpreendo com a velocidade das mudanças que atravessaram o mundo e a minha existência. Às vezes, confesso, sinto-me como alguém observando as margens de um rio enquanto suas águas correm cada vez mais depressa.

Entre tantas transformações, uma das mais belas tem sido o despertar da consciência coletiva para a inclusão de pessoas e comunidades que durante séculos permaneceram à sombra da visibilidade social. Palavras antes pronunciadas sem reflexão hoje são revistas à luz de um entendimento mais profundo da dignidade humana. Expressões como "surdo-mudo", comuns em minha juventude, cedem lugar a termos mais respeitosos e precisos, como "pessoa surda" ou "comunidade surda", reconhecendo que a ausência da audição não significa ausência de voz.

#PraTodosVerem: Arte informativa em fundo claro com detalhes em azul-marinho intitulada “Sinal Pessoal Libras – Altamir A. Andrade”, acompanhada do subtítulo “Guardião que comunica e conecta sustentabilidade” e da frase “A palavra que protege a vida”. A imagem apresenta seis quadros numerados mostrando um homem idoso, de cabelos e barba grisalhos, usando óculos e camisa azul clara, executando as etapas de seu sinal pessoal em Libras. No primeiro quadro, ele leva a mão próxima à boca e a movimenta suavemente para a frente, simbolizando comunicação consciente. No segundo, posiciona as mãos ao redor de um globo terrestre ilustrado, representando proteção do planeta e sustentabilidade. No terceiro, eleva a mão em movimento ascendente, simbolizando liderança inspiradora e construção de futuro. No quarto, coloca a mão sobre o peito, representando compromisso, propósito e missão de vida. No quinto, estende a mão aberta para a frente, simbolizando compartilhamento de conhecimento e transformação social. No sexto, toca a testa com um dedo, concluindo a sequência. À direita, um quadro resume o significado do sinal completo: “Aquele que comunica para proteger e transformar o mundo.” Abaixo aparecem ícones de microfone, planeta e pessoas, acompanhados das palavras “Comunicar • Proteger • Inspirar”. Na parte inferior da arte, uma faixa azul destaca a mensagem: “Esse sinal representa minha missão: comunicar com consciência, proteger a vida, inspirar pessoas e construir um futuro sustentável para as próximas gerações.”

Os gestos do meu sinal traduzem, em linguagem visual, minha identidade de polímata nexialista, alguém que busca construir pontes entre diferente áreas do conhecimento e entre diferentes formas de perceber o mundo. E a partir de agora este blog conta com o recurso VLibras, uma plataforma gratuita de acessibilidade desenvolvida pelo Governo Federal que traduz conteúdos digitais em português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Seu principal objetivo é ampliar o acesso à informação para pessoas surdas usuárias de Libras.

Ao clicar nesse ícone, que se localiza ao lado direito da tela, o avatar Ícaro realiza a tradução para Libras por meio de animações em língua de sinais

A Libras nasceu exatamente dessa necessidade humana de criar pontes. Não surgiu da falta, mas da potência. Desenvolvida pelas comunidades surdas, tornou-se uma língua plena, rica em nuances, movimentos e significados. Uma língua que não se escuta com os ouvidos, mas se percebe com os olhos e se compreende com o coração. Reconhecida oficialmente no Brasil desde 2002, ela representa muito mais que um instrumento de comunicação: é expressão de cultura, pertencimento e identidade.

Ao longo do tempo, a sociedade também foi aprendendo que a comunicação possui muitos caminhos. Há quem fale com a voz, há quem fale com as mãos, há quem escreva, aponte, toque telas ou utilize tecnologias assistivas para manifestar pensamentos e sentimentos. Cada forma de expressão é uma janela aberta para o encontro humano.

Não por acaso, a história da educação das pessoas surdas no Brasil remonta a 1857, quando foi criado o Instituto Nacional de Educação de Surdos. Desde então, muitas lutas foram travadas para garantir direitos, reconhecimento e participação plena na vida social. O Dia Nacional da Pessoa Surda, celebrado em 26 de setembro, simboliza essa caminhada coletiva em direção a uma sociedade mais justa e plural.

Felizmente, a acessibilidade deixou de ser um conceito distante para tornar-se presença concreta em nosso cotidiano. Ela se revela nas rampas que substituem degraus, nos pisos táteis que orientam caminhos, nos elevadores adaptados, nos semáforos sonoros e nos espaços reservados que ampliam a autonomia de milhares de pessoas. Cada recurso acessível é, na verdade, uma declaração silenciosa de que todos pertencem ao mesmo espaço comum.

Mas a acessibilidade também floresce na comunicação. Legendas, intérpretes de Libras, audiodescrição, leitores de tela e tecnologias inclusivas ampliam horizontes e permitem que a informação circule com mais liberdade. São pequenas sementes de cidadania espalhadas pelo cotidiano, germinando oportunidades onde antes havia barreiras.

Existe, porém, uma forma ainda mais profunda de acessibilidade: aquela que nasce das atitudes. Ela se manifesta quando escolhemos ouvir antes de julgar, acolher antes de excluir e compreender antes de rotular. É a acessibilidade do respeito, da empatia e do reconhecimento de que a diversidade não é obstáculo, mas riqueza.

Curiosamente, quando tornamos o mundo mais acessível para alguns, ele se torna melhor para todos. As legendas ajudam quem está em ambientes ruidosos; as rampas servem a idosos, gestantes e pessoas com carrinhos de bebê; os comandos de voz facilitam a vida de usuários dos mais diversos perfis. A inclusão possui essa virtude rara: ao beneficiar um grupo, amplia o bem-estar coletivo.

Ao revisitar minha trajetória por ocasião desta homenagem, compreendo que a verdadeira sustentabilidade vai muito além da proteção das florestas, dos rios e dos ecossistemas. Ela também se expressa na capacidade de cultivar relações humanas mais justas, respeitosas e inclusivas. O progresso não se mede apenas pelas máquinas que construímos ou pelas tecnologias que inventamos, mas pela sensibilidade com que aprendemos a enxergar uns aos outros.

Que continuemos, portanto, construindo pontes onde antes havia muros, criando caminhos onde antes existiam barreiras e ampliando horizontes onde antes predominavam limites. Que ninguém permaneça invisível. E que possamos deixar para as próximas gerações não apenas um planeta ambientalmente mais equilibrado, mas também uma sociedade mais acolhedora, onde cada pessoa tenha o direito de ser ouvida, vista, respeitada e plenamente participante da grande comunidade humana.

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