quarta-feira, 15 de abril de 2026

Acolher ou fazer “onboarding”? – O excesso de estrangeirismo que deixa muito brasileiro para trás

    Há um ruído crescente atravessando a nossa língua — um ruído feito de palavras importadas que chegam sem pedir licença e, pouco a pouco, vão ocupando o lugar daquilo que já era nosso. Não se trata de negar o diálogo com o mundo, mas de perceber quando esse diálogo se transforma em apagamento. Quando deixamos de dizer com a nossa própria voz para ecoar, de forma automática, um vocabulário que não nos pertence por inteiro.

#PraTodosVerem: Ilustração criada por IA, dividida ao meio, como uma página rasgada. À esquerda, em tons frios de azul e cinza, um homem sozinho lê um livro diante de uma cidade industrial. Acima dele, um megafone projeta palavras em inglês como “onboarding”, “meeting”, “outsourcing” e “feedback”, criando um ambiente impessoal e ruidoso. À direita, em tons quentes de amarelo e laranja, uma cena acolhedora: uma mulher recebe um homem com um abraço aberto em meio a flores, borboletas e casas simples. No céu, palavras em português como “acolhimento”, “cuidado”, “bem-vindo” e “pertencer”. Ao centro, unindo os dois lados, um livro aberto com a frase: “Nossa língua é nossa casa”

    O uso excessivo de estrangeirismos pode funcionar como um mecanismo de exclusão. Nem todos dominam o inglês, e a adoção indiscriminada desses termos dificulta a compreensão, especialmente em ambientes que deveriam ser acessíveis e inclusivos. A linguagem, afinal, deve aproximar, não afastar. “Não deixar nenhum brasileiro para trás” deveria ser a missão de cada cidadão, principalmente daqueles que exerçam a liderança.    
    “Onboarding” é um desses invasores discretos. Surge em reuniões, documentos, apresentações, como se carregasse uma autoridade incontestável. Mas o que ele realmente traz? Um som duro, técnico, quase mecânico — um termo que parece mais preocupado em organizar processos do que em acolher pessoas.
    E então, silenciosamente, deixamos de lado uma palavra como “acolhimento”.
    Quando substituímos “acolhimento” por “onboarding”, não estamos apenas trocando palavras — estamos alterando a temperatura da linguagem. Estamos esfriando o encontro, tornando-o mais distante, mais protocolar. É como trocar um aperto de mão firme e sincero por um formulário eletrônico. Funciona, talvez, mas não toca.
    “Acolhimento” não é apenas um termo — é um gesto. É braço aberto, é olhar atento, é presença que se oferece. É palavra que tem corpo, tem calor, tem história. Ao pronunciá-la, não descrevemos apenas uma etapa: evocamos uma experiência humana. Há nela um convite implícito, um cuidado que antecede qualquer procedimento. “Acolhimento” não se limita a integrar alguém a um sistema; ele reconhece o outro como alguém que chega, que sente, que precisa ser visto.
    Defender o uso de “acolhimento” é, portanto, mais do que uma escolha vocabular — é um posicionamento. É afirmar que a nossa língua é capaz de dizer o mundo com beleza, precisão e humanidade. É resistir à ideia de que o que vem de fora é, automaticamente, melhor ou mais sofisticado.
    Que não percamos, então, a delicadeza das palavras que nos formam. Que não abandonemos aquilo que nos permite falar com verdade e sentir com profundidade. Porque, no fim, não é apenas sobre como recebemos alguém — é sobre como nos reconhecemos naquilo que dizemos.
    E há ainda algo mais profundo: ao encher nosso cotidiano de estrangeirismos desnecessários, criamos muros invisíveis. A linguagem deixa de ser ponte e passa a ser filtro. Nem todos compreendem, nem todos se sentem incluídos. E o que deveria aproximar acaba por afastar.
    Há momentos em que o uso de estrangeirismos ultrapassa o limite do necessário e entra no território do quase absurdo. Um exemplo curioso é a preferência quase automática por “site”, mesmo quando a língua portuguesa já oferece a palavra “sítio”.
    As palavras também têm linhagem, como rios que nascem de uma mesma fonte e seguem, cada qual, seu curso pelo tempo.
    “Sítio” e “site” brotam do mesmo nascedouro: o latim situs, esse antigo nome para lugar, posição, espaço habitado. De lá, a palavra se desdobrou em caminhos distintos. Um deles atravessou séculos, ganhou corpo, sotaque e intimidade, até se tornar “sítio” — palavra nossa, assentada na terra da língua portuguesa. O outro seguiu por terras estrangeiras, moldou-se no inglês e retornou a nós como “site”, vestindo a roupa do novo.
    Não são estranhas entre si — são irmãs desencontradas.
    Mas há algo de curioso, quase melancólico, nesse reencontro: ao nomear os espaços do mundo digital, escolhemos a forma que partiu e voltou, e deixamos de lado aquela que sempre esteve aqui. Como se, diante do espelho, preferíssemos o reflexo ao rosto.
    No fundo, não é apenas uma questão de origem, mas de reconhecimento. “Sítio” carrega o tempo, a memória, o chão. “Site” traz o brilho da novidade. E entre um e outro, a língua revela suas escolhas — às vezes práticas, às vezes simbólicas, às vezes, quem sabe, um pouco esquecidas de si mesma.

    Fiz uma análise de um sítio na internet, de uma organização que tem como lema “Não deixar ninguém para trás”. Zero surpresa para o acúmulo do estrangeirismo, sendo o inglês dominante:
“Networking” – termo amplamente difundido, mas excludente para parte do público. Poderia ser substituído por “rede de contatos”, “articulação de contatos”, “conexões profissionais”.
“Workshop”- há equivalentes diretos e compreensíveis: “oficina”, “oficina prática”, “encontro formativo”.
“Cases – uso comum no meio corporativo, mas pouco transparente fora dele. Que tal “exemplos”, “estudos de caso”, “experiências”?
“Speakers” – prefiro “palestrantes”, “expositores”, “oradores”.
“Happy Hour”- A tradução literal – hora feliz – fica bem distante da prática que quase sempre está mais para “encontro informal;”, “momento de convivência”, “roda de conversa”.
“Main Stage”- o próprio texto já traduz, tornando o inglês redundante: “palco principal”.
“Call to Action” = “chamada para a ação”, “convite à participação”
“Compliance” = “conformidade”, “adequação às normas”.
“Know-how” =  “conhecimento técnico”, “experiência prática”, “saber acumulado”.
“Online” = “virtual”, “pela internet”, “em ambiente digital”.
    Ao se fazer uma análise crítica vê-se que o uso desses estrangeirismos não é pontual — ele forma um campo semântico dominante, especialmente em conteúdos institucionais e eventos. Isso produz três efeitos principais:
1. Distanciamento do público
A linguagem se torna mais técnica e menos acessível, especialmente para quem não está inserido no vocabulário corporativo ou digital.
2. Perda de potência simbólica
Palavras como “acolhimento”, “encontro”, “oficina” e “troca” carregam valores humanos, culturais e afetivos que os termos em inglês não conseguem reproduzir com a mesma intensidade.
3. Contradição discursiva
Há um paradoxo: o movimento promove inclusão, sustentabilidade e engajamento social — mas utiliza uma linguagem que, em alguns momentos, exclui e distancia.
    O sítio analisado comunica valores profundamente humanos — colaboração, inclusão, transformação social. No entanto, sua linguagem, em diversos momentos, adota uma estética importada que enfraquece justamente esses valores. Substituir estrangeirismos não é um gesto purista — é um ato de coerência. É permitir que a linguagem seja ponte, não barreira. É escolher palavras que não apenas informam, mas acolhem.

    Não, não sou guardião de uma língua em redoma, nem vigia de palavras alheias. A língua respira — e, como tudo que respira, muda, escapa, se reinventa. Ainda assim, há um excesso que já não soa como troca, mas como ruído — um eco que não nos pertence.
    Vejamos a cidade onde moro: Joinville. Terra que nasceu de travessias. No século XIX, chegaram homens e mulheres vindos de longe — alemães, suíços, noruegueses — trazendo nas mãos sementes, ferramentas e um modo de ver o mundo. Mas antes deles, muito antes, havia outros passos marcando esse chão, outras vozes que o tempo e o poder tentaram silenciar.
    Dizem que tudo começou, oficialmente, em 1843, como um gesto de dote: terras oferecidas a uma princesa, Francisca Carolina, ao se unir ao príncipe francês François d’Orléans. E do título dele — Príncipe de Joinville — herdamos o nome que hoje pronunciamos como se sempre tivesse sido nosso.
    Depois vieram os navios, as famílias, os invernos estranhos. Em 1851, a Colônia Dona Francisca começou a se desenhar entre matas e rios. Aqui, ergueram casas, abriram caminhos, cultivaram não só a terra, mas também memórias que ainda resistem nas fachadas, nas festas, no sotaque invisível das coisas.
    A cidade cresceu. Tornou-se grande, próspera, orgulhosa de suas raízes europeias — talvez até demais. Pois enquanto celebra algumas heranças, outras permanecem soterradas, como se o passado pudesse ser editado ao gosto dos vencedores.
    E agora, ao caminhar por suas ruas, o visitante talvez estranhe: vitrines, placas, anúncios — quase tudo fala em outra língua. Uma língua que não chegou em navios. Não veio de necessidade, mas de prestígio. Um inglês espalhado como verniz, cobrindo nomes, ideias, identidades.
    Se antes apagaram povos inteiros, hoje não se apagam corpos, mas vozes. Não com violência explícita, mas com substituição silenciosa.
    A língua, que deveria ser casa, às vezes vira vitrine. E entre o que somos e o que exibimos, cresce esse intervalo — esse lugar onde o eco estrangeiro começa a falar mais alto que a própria memória.

    Estou em vias de finalização de uma obra literária. "Fale como um líder, Lidere como um orador". Decidi por 100% da língua pátria nas 300 páginas do livro. Zero de estrangeirismos. Afinal, o livro reforça que a palavra é compromisso, ponte e instrumento de mudança, que comunicar com propósito é assumir o protagonismo da própria história. Afinal, meu livro "não quer deixar nenhum leitor para trás". Em breve, nas bibliotecas.


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