domingo, 25 de outubro de 2026

Entre o alvorecer e o anoitecer: os desafios da democracia brasileira

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi um dos mais acirrados desde a reabertura da democracia no Brasil. A polarização ideológica entre esquerda e direita explicitamente representada nos dois candidatos – Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) – representa a simplicidade da dualidade universal; e a política contemporânea parece cada vez mais aprisionada à essa lógica do binarismo. Certo ou errado, esquerda ou direita, nós ou eles... Essa simplificação encontra uma metáfora na linguagem digital, estruturada sobre dois dígitos: zero e um. Mas, entre a noite e o dia há muitas nuances de alvorecer e anoitecer que a vida e a política não cabem em apenas dois dígitos.

(Imagem gerada por IA) Entre o alvorecer e o anoitecer, a democracia precisa encontrar sua própria luz, uma luz que não exige o desaparecimento das diferenças, mas a capacidade de conviver com elas sem abrir mão da verdade, da justiça, dos direitos e da responsabilidade coletiva

O ser humano prefere o conhecido ao desconhecido. Para a grande maioria a mudança é sempre um risco. Diante do desconhecido ou do desconforto o cérebro ativa a amígdala (região responsável pelo medo e autopreservação), interpretando a situação como uma ameaça em potencial. Mas, no campo político, há momentos que a maioria opta por mudar. E isso vem acontecendo na democracia brasileira. E mais inusitadamente presenciamos essa mudança do primeiro para o segundo turno. Se antes a direita foi vencedora, depois a esquerda conquistou a vitória. Apertada, 3,58% apenas. E isso é um problemão para o governo que conquistou mais quatro anos de mandato.
As próximas eleições presidenciais acontecerão em 2030, uma data marcante no cenário mundial principalmente pelas proposituras dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). A pauta dos 17 ODS, complementada pelo ODS 18, brasileiro, aglutina com mais comprometimento o campo ideológico da esquerda; razão pela qual parte da direita a nega, a criminaliza.
Os próximos quatro anos poderão ser o mais desafiador da trajetória política do metalúrgico nordestino Luiz Inácio Lula da Silva. A direita conquistou maioria no Congresso Nacional tanto na alta câmara (Senado Federal)  quanto na baixa (Câmara dos Deputados). E o regime presidencialista brasileiro tem na sua performance a negociação que pode ser sinonimizada com a política, que é a arte de negociar.
Caso o lado derrotado aceite o resultado democraticamente conquistado, o passado recente com Dilma Roussef demonstra que o cenário de um impeachment contra Lula poderá ser viabilizado, agora com relativa maior facilidade. Supondo que a direita permita que ele conclua o próximo mandato, isso provavelmente só será possível mediante muita negociação que premie suas pautas podendo penalizar drasticamente a esquerda. Considerando ser a biografia de Lula reconhecida como uma das maiores lideranças políticas mundiais, o
 cenário é muito desfavorável ao provável encerramento da sua vida pública.
O quadro que se vislumbra é desafiador, e por conta disso conquistas sociais já cristalizadas correm sério risco de retrocesso neste novo governo. Todavia, a democracia tem caminhos como também foram demonstrados nas três semanas entre um turno e outro das eleições: a mobilização da sociedade, tanto no campo das ruas quanto das redes sociais. O que se desenha para o próximo mandato de Lula é de extrema complexidade, exigindo uma habilidade política sem precedentes, na sua trajetória. Diante dessa vitória eleitoral apertada sobre a direita e de um Congresso Nacional majoritariamente conservador, a governabilidade dependerá estritamente do presidencialismo de coalizão e da arte de negociar.
Para além do binarismo das urnas, o novo governo terá de navegar entre as nuances de uma sociedade dividida, o compromisso com as pautas globais da Agenda 2030 e a necessidade premente de conciliação com as forças de oposição, sabendo que qualquer passo em falso poderá pavimentar o caminho para uma crise institucional ou um eventual processo de impeachment.
Vencer uma eleição não significa conquistar toda a sociedade, assim como perder não significa deixar de fazer parte dela. O adversário político não desaparece depois da apuração, e os problemas do país não se resolvem pela vitória de um lado sobre o outro. 

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