segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Com maiores notas de avaliação IVC conquista dois prêmios de edital do Simdec 2016 de Joinville, SC

A partir do projeto "Licença Poética" um novo documentário está em curso pela Ipê Produções, trata-se de um curta-metragem, com 25 minutos de duração, sobre o tema Literatura em Cárceres que tem como pano de fundo o Projeto de Leitura e Remição de Pena em prática desde 2013 no Complexo Prisional de Joinville. 
"Licença Poética" foi um dos projetos premiados, neste mês de Setembro de 2017, pelo Simdec 2016 de Joinville, SC.
A diretora do filme, Ilaine Melo, diz que a obra quer apresentar à comunidade joinvilense e brasileira quais mudanças a prática da leitura literária provocou ou não nos detentos em questão.
"O documentário pretende mostrar como efetivamente esta iniciativa está ocorrendo sob o olhar do apenado. Como a prática da leitura está mudando, ou não, valores dos detentos com relação à cidadania, à ética, à liberdade responsável. A leitura que eles fazem destes livros será a mesma que fazemos nós? Assim, Licença Poética vai apresentar a leitura literária dentro das grades, a visão de homens e mulheres privados de liberdade sobre clássicos da literatura mundial", diz a pesquisadora que também é roteirista da obra.
O projeto Licença Poética, que conta com o apoio do judiciário joinvilense e da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, é uma parceria entre o Instituto Viva a Cidade e Ipê Produções

Ilaine Melo tem larga formação em literatura. Trabalha há 15 anos com cursos de Formação de Leitores e Leitura Mediada. Será ela a responsável pelas entrevistas com os apenados por ter um grande repertório com a temática, tendo assim condições de uma conversa/entrevista balizada pela literatura.
Quando da confecção do projeto, o Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville, Dr. João Marcos Buch confirmou o acesso às resenhas escritas pelos detentos, o que será o ponto de partida para a seleção de quais prisioneiros farão parte do documentário. 
João Marcos Buch, num set de filmagem do projeto Licença Poética, no seu gabinete, no Fórum da Comarca de Joinville
 
Projetos como esse são passos importantes na direção de um mundo não violento. Ludwig Witggenstein já dizia que o universo de um homem é medido pelo tamanho de seu vocabulário. Com isso o leitor expande seu universo, desenvolve a empatia e passa a compreender melhor sua própria história. Isso é educação, é fortalecimento da ética, é resgate da dignidade humana”, diz o magistrado.
 
O projeto de Remição de Pena consiste em o detento escolher uma obra da lista dos livros selecionados, ter um prazo de vinte dias para realizar a leitura e mais dez para escrever uma resenha. Essa resenha é encaminhada ao Departamento do Curso de Letras da Univille, onde a professora Taiza Mara Rauen, juntamente com alunos bolsistas deste curso, fazem a leitura das resenhas e, levando em consideração a formação escolar do detento, apresentam para cada resenha o seu parecer técnico. Este parecer é encaminhado à Justiça para avaliação e homologação do juiz, quando então, tendo parecer aprovado, o detento terá quatro dias abatidos de sua pena. 
Isto significa que, ao ler um livro por mês, o detento tem a possibilidade de descontar 48 dias de sua pena em cada período de um ano. Em 2014 foram lidas 1.500 obras literárias, número repetido em 2015 e superado em 2016. 
"Obviamente, o primeiro impulso, ou a primeira motivação do apenado para iniciar a leitura é a remição da pena, mas o que nos interessa como objeto deste documentário é a transformação que a Literatura trouxe (ou não) a estes homens e mulheres que temporariamente estão privados de liberdade. Temos informações de detentos que já leram mais de cinquenta livros literários, leituras que vão além da obra/quota mensal que está vinculada à remição da pena", diz Ilaine Melo. 
O presídio industrial de Joinville tem uma diversa biblioteca. Centenas de livros são doações do empresário Mário Zendron que vê na leitura uma oportunidade de mudança das pessoas. "Acredito que a literatura abre a cabeça das pessoas e mexe com o coração", diz Zendron, que é um leitor contumaz.

O empresário Mário Zendron, patrono de algumas bibliotecas públicas em instituições joinvilenses, é uma referência no apoio às iniciativas de estímulo e apoio à leitura

Aos 88 anos, o empresário ainda marca presença diariamente na sua empresa. No escritório, livros são objetos marcantes sobre a mesa. Sorridente diz que ler é o que mais faz no local. "Depois que leio destino meus livros à doações. Também compro alguns para ampliar e atualizar as bibliotecas. E como muitos sabem dessa minha causa, doam livros para mim também".
Foi Richard Harrison, atualmente vereador, quando comandava o Presídio Industrial de Joinville, quem convidou Mário Zendron para conhecer e pedir seu apoio na montagem da biblioteca para os apenados. "Doei e continuo doando. Acho esse projeto de Remição de Pena pela Leitura uma grande iniciativa do juiz João Marcos Buch. Respeito-o. Ele tem um coração nobre. E o presidiário deve ter acesso a livros que mexam com a mente e o coração deles. Eles saem de lá mais 'gente'. Acredito que os livros melhorem as pessoas que estão presas".
Tem razão o empresário. Esses leitores, na sua maioria em processo de formação, pois não o eram antes do cárcere, passam a exercitar efetivamente a atividade de ler e escrever e adquirem conhecimentos mínimos da estrutura da obra literária e do texto criado ao compor ele mesmo uma resenha. Este exercício provocou nalguns o desejo de escrever.

Na Feira do Livro de Joinville, em 2015, quatro detentos declamaram poemas autorais para o público presente. Foi neste dia que Alex Giostri, editor da Editora Giostri de São Paulo, presente no evento, se interessou pelo Projeto de Remição de Pena e, junto ao judiciário, iniciou uma segunda etapa deste trabalho, a de "Literatura no Cárcere" que, em síntese, é uma ação para o estímulo à criação literária. O editor defende a máxima de que "quem lê, escreve".

Alex Giostri, em sua casa, em São Paulo, numa entrevista para a diretora do filme, Ilaine Melo

Para dar início a esta nova fase do projeto, foram expedidos convites a todos os detentos. Aqueles que quisessem escrever algum texto, que assim o fizessem e encaminhassem ao Juiz. Os textos, então, foram enviados para o editor Alex Giostri, que veio a Joinville e fez uma imersão literária com os detentos que escreveram as resenhas dentro do complexo prisional. A partir desta imersão, os detentos participantes do projeto começaram a ter oficinas constantes sobre criação literária. Destas oficinas nasceram duas publicações pela Giostri “Contos Tirados de Mim. A Literatura do Cárcere” e “Contos Tirados de Mim. A Literatura do Cárcere. Vol.2”, ambas com lançamento em 2016. 

Detentos, autores de contos literários, com equipe do presídio,  preparando-se para o lançamento do livro

"Projetos como estes são passos importantes na direção de um mundo não violento. A Literatura atingiu esses detentos profundamente. O bem que isto está provocando neles eu não consigo dimensionar. Porém, em mim e, tenho certeza, em toda a sociedade, eu consigo: está fazendo um bem enorme", comemora João Marcos Buch.
"O sucesso destes dois Projetos (Leitura e Remição de pena e Literatura no Cárcere) é foco de análise de várias partes do País, mas pouco ou quase nada desse tema a sociedade joinvilense tem conhecimento. O que fica claro é que estes projetos, além de redimir a pena, incluem estes indivíduos na sociedade através da literatura e passam a ter assim uma passagem mais humanizada e construtiva enquanto cumprem sua pena no presídio", finaliza Ilaine Melo.

O projeto "Licença Poética" conquistou a maior nota de avaliação na disputa do edital do Simdec 2016 (8,05) no audiovisual.

Ficha Técnica do Licença Poética
Roteiristas: Ilaine Melo e Altamir Andrade

Diretora: Ilaine Melo
Diretor de Fotografia: Fabrício Porto
Trilha Sonora: Lausivan Correa
Produtor Executivo: Altamir Andrade 
Montagem: Julium Schramm
Difusão do Filme: Ivan Melo
Produção: Ipê Produções

Outro projeto apresentado pelo IVC, e também aprovado, este com a maior nota de todo o edital (9,93), Pesca artesanal - Um olhar de perto, trata-se da realização do mapeamento dos usos, funções e as significações simbólicas, estética e sociais do trabalho com a pesca artesanal em Joinville.
A pesquisa será realizada nas comunidades da Ilha do Morro do Amaral, comunidade pesqueira do Bairro Espinheiros e comunidade da Vigorelli.

Os modos de fazer, de se organizar e de repassar ofícios, suas manifestações musicais, festas e celebrações religiosas, seus lugares de memória, seus espaços sociais e culturais são o foco deste projeto de Pesquisa de Patrimônio Cultural Imaterial.

Sobre o Simdec 2016
Dos 224 projetos inscritos no Concurso de Apoio à Cultura do Edital 001/2016 da Secult - Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville, 79 foram aprovados. 
O valor, referente ao orçamento de 2016, é de R$ 2,13 milhões.
Cada proponente poderia apresentar, no máximo, dois projetos. O IVC teve 100% deste aproveitamento.
O projeto Licença Poética foi contemplado com R$ 51.500,00.
Os membros da Comissão Julgadora de Audiovisual foram:
Luiz Roberto de Andrade Marchesini
Tati Lourenço da Costa
Tissiana dos Santos Carvalhedo

O projeto Pesca artesanal, um olhar de perto foi contemplado com R$ 30.000,00.
Os membros da Comissão Julgadora de Patrimônio Cultural Imaterial foram:
Fernanda de Freitas Dias
Myreika Lane de Oliveira Falcão
Tati Lourenço da Costa 


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